Por quê a gente fala tanto de DESBUNDE?

Com uma passada de olho atento às nossas postagens e escritos, você deve ter percebido que usamos "DESBUNDE" muitas vezes nas nossas comunicações. Mas afinal, por quê é tão usada? Você sabe o que é e de onde vem essa expressão? O que ela tem a ver com o burlesco? Confira!





Origem


Desbunde, segundo o dicionário Michaelis, tem algumas definições:


1. Ato ou efeito de ficar fascinado ou deslumbrado com alguém ou algo.

2. Pessoa ou coisa que provoca deslumbramento: “Naquela mesma noite realizou-se o banquete, um banquete que ficaria nos anais da realeza; iguarias sem fim, preparadas por cozinheiros vindos de regiões longínquas, mil variedades de vinho, frutas exóticas… Um desbunde, enfim […]” (MS).

3. Estado de quem fica confuso ou espantado.

4. Perda do autocontrole, especialmente após ingerir drogas.

5. Adoção de estilo de vida devasso ou que afronta os padrões convencionais da nossa sociedade.


Nos anos 70, o movimento do Desbunde propunha um jeito alternativo ao contexto político-social que a ditadura impunha, um convite a repensar as estruturas sociais, o jeito de encarar a vida, a arte, as diversidades de viver, os taboos.



A contracultura era uma alternativa de questionamento lúdico e comportamental daquela realidade, um exemplo eram os Dzi Croquettes:

"...formado por treze homens bailarinos, atores e cantores, em plena ditadura militar, criou espetáculos irreverentes e ousados, que misturavam os ritmos brasileiros com o Jazz, o Teatro de Revista com os musicais da Broadway, cenas de plateia que evocavam o improviso como ferramenta política e questionadora, o carnaval, e o cabaré." - Cabaré Incoerente.

O desbundado vivia no corpo seus ideais de contracultura e de contestação dos modos de vida ocidental, seja no modo de vestir, de criar, nos trejeitos. Era marginal por excelência, pois afrontava tanto a direita conservadora, quanto a esquerda militante; tanto o regime militar, quanto quem combatia o regime com a luta armada.



Mas não se engane achando que era uma mera fuga da realidade. Na verdade é reconhecimento do fracasso das velhas formas de viver e menos uma recusa do enfrentamento dos problemas.


Mas onde a Burla encontra o Desbunde?


No Brasil, desbundar é resistir, é engendrar gestos artísticos antiprovincianos e lutar contra a mentalidade conservadora e domesticadora dos corpos. O desbundado faz do desbunde a crítica: a crítica como resistência, a resistência como desvio, o desvio como enfrentamento. É aí que o desbunde e a burla se encontram.



No burlesco desbundar é perder o auto-controle, perder as estribeiras, tirar o disfarce socialmente aceitável, causar espanto e/ou impacto. A performance cria com o público um diálogo provocativo e debochado que exagera à máxima potência o assunto a ser tratado. Sim, beira ao absurdo!

É escovar as máculas do cotidiano à contrapelo e subverter o que dói através do riso, da graça, convidando o público a refletir: "ué, mas se eu to vendo o absurdo que há nisso a ponto de rir, algo passa..."

É aí que o questionamento acontece e há o convite à virada de chave da mente. Desbunde e Burla se atravessam, expandem um ao outro e é aí que a magia acontece.


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