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Qual o lugar do burlesco no Brasil?

Atualizado: 25 de fev. de 2021

A performance burlesca ou, como ela é mais comumente chamada por artistas e público, o burlesco, ainda é pouco conhecida no Brasil. Isso não quer dizer que seja totalmente estranha a nós. Mas como isso começou aqui?

Bem, é certo que Fascinatrix e Sweetie Bird, com estilos, formas de trabalhar e continuidade de carreira bastante distintos, foram as pioneiras do que tem se chamado "a nova onda do burlesco brasileiro", ou nosso new burlesque (ou neo burlesco). Há que se considerar a influência dos meios de comunicação, concentrados em sua maioria em São Paulo, bem como o estilo de vida cosmopolita da cidade, que possibilitou o desenvolvimento de seu trabalho. Isso envolve, além do desejo das artistas em se expressar, ter lugares onde os shows possam acontecer, e também um público interessado. Mas, e onde não existem meios de comunicação tão eficientes, ou onde simplesmente pode ser perigoso ser uma artista? Será que já não havia alguém antes delas? Algumas performers que nunca se enquadraram nos moldes de vedetes de teatro de revista, ou atrizes do cinema, já faziam shows autorais e incomuns nas décadas de 1950 e até mesmo antes. Nomes como Luz del Fuego (1917–1967), Elvira Pagã (1920–2003) e Suzy King (1917–1985) são exemplos disso, mas há muitas mais. Se considerarmos a ditadura militar nas décadas de 1970 e 1980, além da instabilidade econômica e social dos anos de 1990, mal se conseguia escrever e registrar fenômenos dos circuitos mais oficiais das artes. Se havia artistas burlescas (e em minha opinião, é bem provável que havia, mesmo que não se auto-declarassem por nesses termos), deviam estar atuando intencionalmente nas sombras.

Não há muito material sobre nossas avós, mas há esforços hoje para se cartografar essas existências. Um exemplo desse trabalho é a dupla de pesquisadores Alberto Camareiro e Alberto de Oliveira (também conhecidos como Os Albertos)(6), que tem feito um trabalho bastante cuidadoso em encontrar e escrever histórias sobre essas performers. A realização de festivais pelo país, como o Yes, Nós Temos Burlesco! (que este ano já está na sua 6ª edição no Rio de Janeiro), e o Porto Alegre Burlesque Festival (que vai para a 5ª edição), tem contribuído também para o fomento de novas artistas e a formação de público, além de fortalecer laços de afetos e informações entre artistas de várias partes do país.


Um burlesco antropofágico?


Outrora bastante popular e político, a Revista foi perdendo espaço para o futebol como paixão nacional. A instabilidade política e a repressão à brasileira também restringiram os espaços possíveis para apresentação de artistas que celebram seus corpos e liberdade. O machismo, típico de culturas latinoamericanas e autorizado pela repressão brasileira, tornava as coisas sempre mais difíceis. Algumas mulheres trans e travestis furavam mais facilmente o bloqueio da hipocrisia (marginalizadas em suas vidas, eram estrelas no palco). O grupo queer Dzi Croquettes, também. Em plena ditadura militar, Croquettes e Travestis contribuíram para popularizar características bastante particulares do modo de performar à brasileira. Com inspiração em nossas performers rebeldes do passado (atrizes, divas do rádio ou dos subterrâneos), assumiam a decadência, o pastiche; sabiam trabalhar com recursos escassos, usavam o deboche e o desbunde, além do jeito antropofágico de criar. Talvez sejam essas algumas das características mais marcantes de nossas diferenças como performers.

O burlesco à brasileira não segue um padrão ou estilo estrito de nenhum outro lugar e é bastante diverso e contemporâneo. Oswald de Andrade, em seu Manifesto Antropófago, diz: “O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica” (ANDRADE, 2011, p. 28). O burlesco na arte detém seus discursos e modos de operação sobre uma grande ênfase ao corpo. A vacina antropofágica a que Oswald se refere teria a finalidade de prevenir a artificial separação entre mente pensante e corpo a ela subjugado, visão exacerbada pela cultura ocidental de herança platônica, cartesiana, iluminista e positivista. Faz parte do jogo antropofágico o rompimento com essa lógica, na medida em que ela é, como tudo, transformada no processo de deglutição.

Se para haver burlesco, é necessário que a burla esteja presente, o que é que se burla nessas performances? Acredito que a burla seja a do próprio corpo da artista e suas significações (históricas, psíquicas, sociais). Há um corpo a ser burlado. Se é no corpo que está inscrito as significações do mundo e do eu, a burla, aqui, seria um percurso deste corpo na tentativa de operar a partir de suas dores, de suas marcas, de seus entraves. Mas também de suas alegrias, descobertas e invenções. Burlar, em certa medida, é rir, e é preciso malícia para rir de si sem piedade. Estranhar-se.


E qual é o lugar do burlesco no Brasil?


O burlesco no Brasil tem crescido na última década, e vem se consolidando como movimento artístico, a partir da realização de eventos e festivais. Também observamos, nesses últimos anos, um crescente uso governamental de políticas autoritárias, adotadas tanto em âmbitos municipais e estaduais, como no federal. O Brasil pós-golpe parlamentar está cada vez menos laico, exercendo um controle maior sobre os corpos — seja pela proibição de agrupamentos em locais públicos, pela intervenção militar, pelo uso da polícia e milícias, ou simplesmente pelo desmantelamento e sucateamento de estruturas de fomento à cultura e até mesmo ao convívio social. Compreendo a burla como ação, e o burlesco como estratégia de produção de diferença. Nesse sentido, seu uso desestabiliza as políticas autoritárias.

Na burla do corpo, rompe-se com as lógicas e práticas normatizadoras, criando possibilidades de reinvenção. A burla do corpo extrapola permissões, proibições e significações. Ela elimina a reatividade que conecta o corpo a dispositivos conservadores, paralisantes. Onde há feridas, a burla abre frestas para a criação de espaços dissonantes de atuação: políticas singulares, gêneros performativos, etc. Onde há gozo, ela inventa conexões que proporcionam instigantes relações entre artistas e público. O corpo burlado torna-se, ele mesmo, um caminho para a leitura crítica de dados culturais.


Fonte: https://missgburlesca.medium.com/qual-%C3%A9-o-lugar-do-burlesco-no-brasil-c8a45879bc49

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